Cresce a epidemia silenciosa de ansiedade no Brasil e no mundo
Por Gabriel Monteiro
A ansiedade, considerada o mal do século pela
Organização Mundial da Saúde (OMS), atinge proporções alarmantes no Brasil e no
mundo. Estimativas recentes revelam que mais de 1 bilhão de pessoas
convivem com transtornos mentais, sendo a ansiedade uma das principais causas
de afastamentos do trabalho e de queda na qualidade de vida.
No Brasil, o problema é ainda mais grave: o país
figura entre os líderes globais em incidência de transtornos ansiosos, com 68%
da população relatando sintomas frequentes e mais de 141 mil
afastamentos laborais registrados em 2024 apenas por esse motivo.
Levantamentos do Ministério da Saúde apontam
crescimento de 14% nos atendimentos ambulatoriais por ansiedade entre
2023 e 2024. Enquanto isso, pesquisas internacionais, como a da Associação
Psiquiátrica Americana, mostram que 43% dos adultos nos EUA se sentem
mais ansiosos do que no ano anterior. Especialistas alertam que o cenário
reflete não só os impactos da economia e das redes sociais, mas também a falta
de acesso a tratamento psicológico de qualidade: problema que afeta mais da
metade dos brasileiros que dizem precisar de ajuda.
Nos centros urbanos, a rotina acelerada e a
sobrecarga digital são apontadas como fatores que intensificam a sensação de
alerta constante. Psicólogos afirmam que a hiperconectividade e o excesso de
informações alimentam o estresse e dificultam o descanso mental, sobretudo
entre jovens. A "geração Z" (1997-2012), por exemplo, apresenta índices de ansiedade mais
altos do que qualquer outra faixa etária, refletindo um cenário de insegurança
social e pressão por desempenho.
O desafio, segundo especialistas, está em
transformar o crescente debate sobre saúde mental em políticas públicas
efetivas. Apesar do aumento de campanhas de conscientização, mais da metade
dos brasileiros que relatam sintomas de ansiedade nunca procuraram ajuda
profissional, segundo pesquisa da AtlasIntel. Investimentos em atendimento
psicológico, educação emocional e ambientes de trabalho mais equilibrados são
apontados como medidas urgentes para conter o avanço desse transtorno que,
silenciosamente, se tornou uma epidemia moderna.
COMO UM ALARME
Segundo Célia Cavalcante, psicóloga clínica autônoma
que já atuou no projeto Incubadora, da Rede de Psicologia, a ansiedade é
considerada o mal do século pois ela cresceu junto com o ritmo de vida das
pessoas. As causas são o ritmo de vida acelerado e conectado, além de grande
número de cobranças no dia a dia. “A mente fica acelerada, tentando dar conta
de tudo, e isso gera um medo constante de falhar, de não ser suficiente, de
perder o controle. A ansiedade é como um alarme que toca o tempo todo, mesmo
quando não há perigo”, salienta.
Outro fator considerado relevante para o aumento da
ansiedade é a desconexão do indivíduo com seu núcleo familiar. Seja por falta
de tempo, conflitos ou distanciamento emocional, quando se perde um lugar de
afeto e proteção, surgem medos novos, inseguranças que poderiam ser evitadas. O
que antes era acolhido em casa, agora é vivido sozinho, em silêncio. Isso
aumenta a sensação de estar perdido no mundo. Por isso, segundo Célia, cuidar
da saúde mental é tão importante quanto cuidar do corpo, e um dos remédios para
a diminuição da ansiedade são os vínculos verdadeiros.
RECONEXÃO
São muitas as abordagens terapêuticas que podem ser
usadas para tratar a ansiedade. Enquanto umas trabalham na análise dos
pensamentos e comportamentos considerados causadores da ansiedade, outras
investigam emoções profundas e conflitos internos. Existem terapias que focam
na respiração e reconexão com o momento presente. Todas buscam o mesmo
objetivo: fazer o indivíduo entender a si próprio, se fortalecer e lidar de
forma mais benigna com a vida.
Sobre as abordagens para tratamento da ansiedade,
Célia ainda afirma que esse transtorno está ligado à subjetividade de cada
pessoa, e o tratamento deve saber respeitar a maneira única de cada indivíduo.
Não há receita de bolo para buscar tratamento partindo da história de vida e
experiências de cada um. “Quando falamos de gente, precisamos de uma visão
ampliada, que considere o ser humano como um todo. Quanto menos fragmentamos,
mais conseguimos alinhar as partes e promover um cuidado verdadeiro”, finaliza
a psicóloga.

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