Os desafios do empreendedorismo feminino nos brechós de Goiânia
Tendo seus comércios cada vez mais sendo reconhecidos, donas de lojas de roupas usadas são frutos da crescente emancipação feminina no setor varejista
Encontro de Brechós, ocorrido no último dia 7 de junho. Fonte: Instagram.
Por Gabriel Monteiro
Data: 17 de junho de 2026
O aumento das vendas do setor varejista no Brasil
pode ser observado em diversos tipos de produtos. De acordo com dados da
Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), divulgada pelo Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE), o comércio de varejo fechou o ano de 2025 com
alta de 1,6%. Das 11 atividades pesquisadas do varejo ampliado (que mede o
desempenho de setores do consumo, englobando não apenas bens não duráveis e
semiduráveis, mas também bens duráveis),
sete fecharam o ano no positivo, dentre os quais está a de tecidos, vestuário e
calçados, com 1,3%.
Em relação ao mercado de
vestuário, se destacam os comércios de roupas de segunda mão, os brechós. O que
mais motiva o crescimento desse mercado é o apelo sustentável da economia
circular, que incentiva a compra e uso de roupas já utilizadas anteriormente.
Um dos fatos mais salientados, de acordo com o levantamento “Retrato dos
Brechós e Bazares no Brasil 2025”, realizado pela Aliança Empreendedora e
Renata Abranches Branding, é que 98% dos comerciantes é composto por mulheres,
das quais 65% se declaram negras.
Entretanto, existem
dificuldades em torno da área. 53% das proprietárias faturam o equivalente a um
salário mínimo mensal, e de acordo com as entrevistadas, a receita é
insuficiente para o sustento familiar. Outra dificuldade enfrentada é a
informalidade. 61% dos brechós não possuem CNPJ, dificultando acesso a crédito
bancário e benefícios previdenciários. Além do mais, 89% das vendedoras optam
pelo modelo Microempreendedor Individual (MEI).
Mesmo com os pesares, a
venda de roupas de segunda mão tem se firmado cada vez mais no cenário
nacional. Em Goiânia, os brechós tomam cada vez mais espaço no mercado e, para
afirmar sua presença, realiza-se diversos eventos em que as lojas se unem e se
aproximam de seu público, angariando diversos compradores. Um dos exemplos é o
Encontro de Brechós, cujo último evento ocorreu no dia 7 de junho, entre as 10
e 18 horas, na rua 15, no Setor Central.
Para ilustrar ainda mais esse cenário, a reportagem
entrevistou duas vendedoras da área: Talita Epifânio, dona do brechó MYLOOK, e
Izabela Rodrigues, do Acervo da Bela. Elas comentaram seus desafios, suas
experiências como empreendedoras e sua relação com os eventos como o Encontro
de Brechós.
METAMORFOSE
Epifânio começou a vender suas peças online, e em
novembro de 2025 abriu seu brechó físico. Sua jornada no setor varejista foi
semelhante a uma metamorfose: ela começou apenas a distância, e vez ou outra
aparecia nas feiras para apresentar seus produtos, que eram peças novas. Ela
conta que, depois do primeiro evento que participou, decidiu trabalhar com
brechó.
De acordo com Epifânio, as feiras de brechós são
muito importantes para o crescimento de um empreendimento, principalmente para
quem não é goiana. Para quem veio à cidade em busca de oportunidades, conhecer
os clientes e até mesmo desenvolver amizades através das feiras foi algo que a
ajudou muito. Além disso, as feiras, junto da Internet, eram o principal meio
de vendas dela.
Já Izabela Rodrigues, dona do Acervo da Bela,
começou no ramo há sete anos. Ela iniciou uma espécie de empreendimento quando
ainda fazia Ciências Sociais na Universidade Federal de Goiás (UFG), como forma
de conseguir uma renda extra. Ela participa regularmente do Encontro de
Brechós, sendo a única feira aberta que conta com sua presença atualmente. “Tenho
outros projetos também, como o meu evento bimestral e um outro novo projeto que
está engatinhando, gosto muito dessa vibe
de reunir brechós e fazer uma exposição com uma estética de brechó de verdade”,
conta ela.
Em relação à Internet, ela salienta que sempre foi o
gancho principal de seu negócio, sendo a partir dela que ele cresceu. É através
das redes sociais que ela capta boa parte de sua clientela, que vão até sua
loja conhecer seu trabalho. Ela diz que a Internet é o cartão postal da loja,
pois o que ela posta fica exposto e gera resultados.
MULHERES NO
MERCADO
Ambas as lojistas destacam suas experiências e
opiniões acerca dos desafios envolvendo ser uma mulher e vender roupas usadas.
Talita Epifânio diz que é desafiador, mas garante que não é algo na qual as
mulheres não consigam dar um jeito. “É luta atrás de batalha, mas o mais
desafiador é as pessoas próximas às vezes não confiarem no seu trabalho”,
destaca ela.
Segundo Epifânio, ainda existe muito preconceito com
roupas de segunda mão: alguns citam a probabilidade de ser “roupa de morto”,
outros questionam o preço alto das peças levando em consideração que são roupas
usadas. Para ela, isso é um tabu que vem sendo cada vez mais rompido.
Izabela Rodrigues tem uma opinião parecida. Para ela,
empreender sendo mulher é algo normal, mesmo com seus desafios. Para ela,
trabalhar para si mesma é sobre se arriscar todos os dias. Ela também comenta
que ser criativo e desperto para fazer seu próprio dinheiro é intrínseco do
empreendedor nato, dando o exemplo de sua própria vida.
Por fim, Rodrigues comenta do desafio de superar a
si mesma todos os dias. Ela deseja ser e fazer melhor, e para isso se exige disciplina
e constância. “Não me comparo com ninguém, me comparo a mim mesma pois eu me
vejo como uma fonte que não pode secar, e isso as vezes pressiona. Mas quando se
gosta do que faz, flui melhor”, finaliza ela.

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