Como os jogos de azar impactam a classe trabalhadora
Com o aumento vertiginoso das casas de aposta pelo Brasil, faz-se importante discutir os efeitos que as “bets” produzem nos cidadãos brasileiros, em especial os de classe mais baixa
Por Gabriel Monteiro
Data: 29 de março de 2026
Por meio de telas coloridas, sons vibrantes e uma
sensação de adrenalina crescente e hipnótica é que pode ser resumida a
experiência atual dos jogos de azar, em especial, aqueles chamados de forma
generalista de “tigrinho”. Repleto de uma gamificação e pensado
estrategicamente para manter o seu público vidrado, eles se tornaram uma febre
no Brasil, em especial após a legalização das casas de aposta em 2018.
A febre das apostas ocorreu de forma desenfreada
desde essa data, sendo necessária uma regulamentação mais assertiva, o que foi
concretizado em 2023 com a criação de novas regras para o mercado dos jogos de
azar, regras essas que foram vigoradas a partir de 2025. De acordo com o que
foi apresentado em matéria do Ministério da Fazenda no site do Governo Federal,
de mais de 90 bets envolvidas no processo de fiscalização, 35 foram sancionados
ao longo de um semestre.
Ainda segundo o Ministério da Fazenda, fez-se
responsabilidade da Secretaria de Prêmios e Apostas do mesmo ministério
sancionar as instituições financeiras e de pagamento (IF e IP) em relação às
atividades irregulares de apostas de quota fixa (em que o apostador já conhece
as probabilidades de ganho em caso de vitória). Em decorrência disso, em um
semestre foram encerradas as contas de 255 pessoas físicas e jurídicas, número
esse que, dependendo da aplicação mais assertiva das sanções, pode ser ainda
maior do que o apresentado.
Nesse cenário, se mostra necessário refletir os
impactos dos jogos de azar na vida dos cidadãos, em especial os de classe baixa.
Segundo o Banco Central, em relatório de 2024, cerca de 24 milhões de pessoas
participaram de apostas e jogos de azar. O perfil dos apostadores é de jovens
entre 20 e 30 anos, abrangendo, porém, diversas faixas etárias. O valor de
transferência mensal entre os jovens para as ditas bets é de R$ 100, enquanto
para os mais velhos ultrapassa os R$ 3.000.
Já em análise mais recente do Ministério da Fazenda,
a faixa com maior número de apostadores é entre os 31 e 40 anos, representando
27,8%. Os mais jovens, entre 18 e 25 anos, por exemplo, se mantém em 22,4%,
enquanto a menor parcela, entre 61 e 70 anos, se mantém em 2,1%. No que diz
respeito ao número total de apostadores, 71% são homens, enquanto as mulheres
são apenas 28,9%.
CAÇA AO TESOURO
No Brasil, a cultura dos jogos de azar se
popularizou de forma massiva. De acordo com o economista Josué Coimbra, há
quatro principais motivos que levaram a esse cenário: investimento massivo em
publicidade, a democratização por vias tecnológicas (por meio de aplicativos
disponíveis para vários modelos de celular), ausência de regulação clara por
muito tempo e um ambiente econômico de baixa mobilidade social. “Além disso, o
uso de influenciadores digitais e a associação com clubes esportivos ajudaram a
normalizar as apostas como entretenimento cotidiano, reduzindo a percepção de
risco”, acrescenta.
Em relação à grande fama dos jogos de azar na classe
trabalhadora, Coimbra ressalta que, num país profundamente desigual como o
Brasil, a promessa de um ganho rápido de capital tornou as apostas mais do que
apenas entretenimento, mas uma verdadeira caça ao tesouro. Os cidadãos, diante
da dificuldade de se promoverem financeiramente em vias de trabalho formal,
enxergam esse mercado como uma forma de ascensão fácil e, em certa medida,
enérgica e cheia de adrenalina.
Os apostadores, por meio dos jogos, são reféns de
uma ilusão de controle, além de se encherem de um viés de otimismo e
supervalorização de ganhos pontuais; isto é, uma vitória muitas vezes irrisória
após uma sucessão de derrotas. O ponto não é apenas sobre renda baixa, mas
também sobre como as pessoas tomam decisão sob incerteza.
NA MENTE E NO
BOLSO
Como resultado da animosidade causada pelas apostas,
a população acaba tragada em conflitos não somente econômicos, mas também
mentais. E quase sempre esses dois aspectos se conectam, pois não é possível
separar os impactos em categorias isoladas. A psicóloga Célia Cavalcante,
consultada em entrevista, comentou que o vício atravessa todas as classes
sociais, sendo os cassinos e apostas online mais comuns em classes mais altas e
loterias e jogos informais em classes populares. “O ponto central é que o jogo
compulsivo não escolhe perfil, mas encontra espaço em quem busca nele uma saída
emocional ou financeira rápida”, salienta.
Em relação aos impactos financeiros, Josué Coimbra
ressalta que o tipo de aposta é determinante, mas que em geral segue-se um
padrão: ambas tendem a manter expectativas matemáticas negativas. Apostas
esportivas são mais recorrentes, o apostador sofre perdas pequenas, porém
frequentes, que vão formando uma bola de neve ao longo do tempo até se tornarem
maiores. Cassinos online são mais rápidos e costumam oferecer perda potencial
maior a curto prazo; ao passo que apostas ao vivo aumentam a impulsividade,
elevando o risco de decisões irracionais.
Célia Cavalcante, em sua fala, também cita as
consequências na vida dos apostadores. “O jogo compulsivo cria um ciclo:
euforia durante a aposta e sofrimento intenso depois das perdas, o que reforça
ainda mais a compulsão. No plano social e familiar, surgem conflitos conjugais,
rompimento de vínculos, isolamento e perda de confiança. Financeiramente, o
impacto costuma ser devastador: dívidas, endividamento crônico e, em alguns
casos, até envolvimento em práticas ilegais para sustentar o vício”, reforça.
OFERECENDO UMA
SOLUÇÃO
A regulamentação das apostas esportivas foi um passo
importante para formalizar o setor e permitir arrecadação tributária, mas ela
por si só não resolve os impactos sociais. De acordo com Josué Coimbra, há um
desafio em fazer valer a regulação, e isso deve ser feito em três pontos:
controle da publicidade (regular quanto e como será feita a divulgação desses
jogos de azar, tanto em mídia televisiva como na internet), proteção dos
públicos vulneráveis (pessoas com a renda menor, em especial, jovens que estão
começando a vida adulta) e mecanismos de prevenção ao comportamento compulsivo.
A questão possui várias outras nuances, inclusive
clínicas, e recebe da psiquiatria o nome de ludopatia (o vício em apostas). “A
ludopatia é considerada uma dependência comportamental. Assim como nos vícios
químicos, há ativação intensa do sistema de recompensa no cérebro,
especialmente envolvendo dopamina, o que explica por que o indivíduo perde a
capacidade de avaliar riscos e tende a minimizar as consequências”, argumenta
Célia Cavalcante.
Ainda segundo Josué Coimbra, a longo prazo é
necessário investir em educação financeira e políticas que efetivamente ajudem
a melhorar a renda da população, “pois parte da demanda por apostas está ligada
à busca por melhoria rápida de vida”, como ele destaca. Além disso, mesmo com a
regulação, persiste o problema das plataformas ilegais, revelando um problema
não apenas jurídico, mas econômico e comportamental.
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